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DERROTAR A EXTREMA DIREITA SEGUE SENDO A TAREFA: UM BALANÇO CRÍTICO DAS ELEIÇÕES DE 2024

Atualizado: 25 de jan.

Resolução Estadual 002/2025 - Balanço Eleitoral do Partido Socialismo e Liberdade, em 17 de Janeiro de 2025


O Brasil ainda sente os efeitos nefastos do golpe de 2016, que possibilitou o ressurgimento da extrema direita no país como fenômeno eleitoral e pavimentou o caminho para a retirada de direitos do nosso povo, o aprofundamento das desigualdades e a promoção de uma política de ódio contra os setores minorizados da sociedade. Em 2022, como expressão de uma ampla unidade democrática, a vitória política e eleitoral de Lula, assim como seu retorno ao Planalto, representaram marcos importantes na luta contra o golpismo. Contudo, a chegada do governo Lula III ao Palácio do Planalto revelou-se insuficiente para conter essa onda. Ainda que a bancada do PSOL tenha crescido na Câmara, enfrentamos hoje um Congresso dominado por setores conservadores, liderados pelo centrão, com uma agenda notadamente contrária aos interesses populares.


Em 2024, a esquerda sofreu uma ampla derrota no Brasil, não apenas com a redução das prefeituras e mandatos parlamentares, que diminuíram sua influência nos municípios, mas também com a perda de alcance na interlocução social e o enfraquecimento de sua identidade política, muitas vezes obliterada. Nesse cenário, o PSOL não ficou imune à derrota eleitoral, sendo a de Guilherme Boulos, em São Paulo, uma síntese desse processo. Apesar de ter enfrentado o pleito com determinação, a eleição foi marcada pelo ódio, mentiras, absurdos e todo tipo de agressão eleitoral, além de uma aliança do bolsonarismo com os dois grandes partidos do chamado centrão.


O PSOL perdeu as quatro prefeituras conquistadas em 2020, com destaque para Belém, cuja campanha em 2024 não conseguiu chegar ao segundo turno. Na disputa majoritária deste ano, o partido limitou-se a conquistar apenas uma vice-prefeitura, localizada na cidade de Pelotas. No que diz respeito aos mandatos parlamentares, o PSOL viu sua representação reduzir-se de 100 para 81 vereadores e vereadoras. Ainda assim, nosso partido segue consolidando-se como uma ferramenta importante para a representação de segmentos historicamente marginalizados no poder institucional, com candidaturas LGBTQIAPN+, de mulheres, indígenas e pessoas negras, reafirmando o PSOL como o partido que aglutina as lutas de diversos setores da nossa sociedade.


Na Bahia, para o campo progressista, a derrota se expressou especialmente em dois exemplos marcantes. O primeiro diz respeito ao fato de que, na maioria das cidades com mais de 80 mil eleitores, a direita e/ou o centro, que representam projetos similares de redução de direitos e um viés conservador, lideraram as disputas eleitorais. Destaca-se que PT, PCdoB, PSB e outros aliados progressistas, em nome da “governabilidade estadual” e da manutenção da chamada “coesão da base aliada do Governo Jerônimo”, abdicaram de disputar diretamente e limitaram-se a apoiar parte considerável dessas candidaturas. Exemplos desse cenário incluem cidades importantes da Região Metropolitana de Salvador (RMS), como Simões Filhos no interior, por exemplo Alagoinhas. 


O segundo exemplo que evidencia a derrota do campo progressista nas eleições de 2024 na Bahia foi o insucesso em municípios-chave dos grandes centros, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Senhor do Bonfim, Lauro de Freitas, Candeias, Barreiras e Ilhéus. A vitória apertada em Camaçari, mesmo com um conjunto de concessões e o apoio do PSOL, configurou-se como um verdadeiro oásis em meio à derrota sofrida. Apesar de o Palácio de Ondina permanecer sob liderança petista, a política de alianças com setores da burguesia e os herdeiros do coronelismo perpetua a matança do povo negro, o ecocídio e a manutenção da pobreza, mesmo após quase duas décadas consecutivas de governos liderados pelo PT.


O PSOL desempenhou um papel relevante nesse processo, especialmente ao oferecer apoio direto, já no primeiro turno, em Camaçari, contribuindo para a vitória de uma candidatura progressista na cidade. Essa atuação tática demonstrou a capacidade do partido de estabelecer alianças locais estratégicas e de reforçar o compromisso com o fortalecimento da democracia.


É importante destacar que o PSOL tem um histórico importante em reforçar candidaturas próprias, com programa e identidade política. No contexto em que o governo do estado apoiou, majoritariamente, candidaturas do Centrão, o PSOL acertou em lançar candidatura própria na capital baiana e em outros municípios do interior. Trata-se de uma atuação histórica e acertada no lançamento de candidaturas majoritárias (tanto para a prefeitura como para o Governo do Estado), além de, desde 2012, elegemos vereadores na capital.


Essas iniciativas foram garantindo um espaço junto a setores da população que passaram a conhecer nossas principais bandeiras e a reconhecer no PSOL a luta pelos seus anseios. Une-se a isto o fato de que a candidatura proposta pelo MDB/PT teve pouca aceitação na esquerda e no próprio PT. Temos o desafio de, a partir do trabalho cotidiano pela base e da criação de uma prática cotidiana e participativa, potencializar a vida política psolista envolvendo a militância e quem se aproxima do partido, no dia-a-dia, a partir dos valores da esquerda e na defesa de um programa radical conectado às lutas do nosso povo.


Os resultados alcançados pelo PSOL na Bahia em 2024 podem ser atribuídos, em parte, aos posicionamentos estratégicos adotados pela direção estadual, como a decisão de apoiar candidaturas majoritárias de outros partidos do campo progressista mediante negociação, mas sem entreguismo. Essa postura permitiu a construção de alianças mais amplas no campo progressista e democrático, resultando em melhores acordos e na concentração de esforços e recursos em campanhas estratégicas. Tal movimentação não apenas reforçou o protagonismo do PSOL nas disputas proporcionais, como também contribuiu para o fortalecimento de um espectro político mais alinhado com pautas progressistas, democráticas e populares.


A acertada iniciativa da direção estadual em qualificar o processo eleitoral de 2024, com investimentos inéditos em formações políticas para as candidaturas, criou um ambiente favorável para o fortalecimento técnico e estratégico das campanhas. Um dos destaques dessa iniciativa foi a implementação de espaços de formação online, acessíveis e dinâmicos, ainda no período de pré-campanha. Nesses espaços, candidatos/as e equipes puderam sanar dúvidas em áreas cruciais, como questões jurídicas, prestação de contas e comunicação. Esse suporte reduziu os erros administrativos e ampliou a capacidade de atuação das campanhas em um cenário competitivo e desafiador.


Esses aspectos positivos reforçam a relevância de uma direção partidária que equilibre a defesa de princípios com uma ação estratégica voltada para resultados concretos. Ao priorizar campanhas viáveis, oferecer suporte técnico e fomentar alianças no campo progressista, a direção do PSOL na Bahia demonstrou que é possível ampliar a representatividade do partido sem abdicar de sua identidade política e de suas bandeiras históricas.


Ainda que o processo tenha apresentado desafios, especialmente no acompanhamento integral das candidaturas e municípios, o PSOL na Bahia registrou certo crescimento no estado, ampliando sua presença nas câmaras municipais, com vitórias eleitorais que reafirmam seu protagonismo na luta antirracista, elegendo vereadores e vereadoras majoritariamente negros e negras.


O avanço do PSOL nas eleições de 2024, contudo, traz um ponto relevante a ser considerado: nenhum dos três mandatos anteriores do partido foi reeleito. Embora tenha ampliado sua base eleitoral e aprofundado sua interiorização no estado, o partido ainda enfrenta desafios na consolidação de sua presença, especialmente em cenários marcados por disputas polarizadas e pela predominância de alianças fisiológicas. Esse contexto exige uma reflexão sobre as estratégias futuras para consolidar os avanços conquistados e superar as dificuldades identificadas.


Ainda que o desempenho na Bahia represente um contraponto ao cenário nacional de retração, abarcando hoje cerca de 12% dos mandatos do partido no Brasil e posicionando-se atrás apenas de São Paulo, ele não é suficiente para reverter a tendência geral de redução da representatividade proporcional do PSOL no país. Nos próximos anos, o partido precisará fortalecer o debate coletivo sobre as táticas eleitorais a serem implementadas em âmbito nacional, estadual e municipal, considerando o contexto, o programa e o perfil das candidaturas. Será necessário ir além da mera absorção de candidaturas e da gestão de recursos, buscando potencializar as capacidades político-eleitorais diante da conjuntura e estimular avanços nas disputas político-ideológicas que ainda estão por vir.


Ademais, o PSOL precisará revisar suas estratégias de articulação e conexão com os movimentos de base, equilibrando sua postura combativa com a necessidade de consolidar mandatos e ampliar sua capacidade de diálogo com setores mais amplos da sociedade, sempre mantendo seus posicionamentos e sua identidade política.


Para o próximo ciclo, é fundamental que o PSOL da Bahia consolide as conquistas recentes e avance em sua estratégia de expansão e fortalecimento político, incluindo:


  1. Ampliar e aprofundar as formações políticas, fortalecendo a relação com movimentos sociais, sindicatos, organizações da sociedade civil e organizações comunitárias. É essencial promover debates e ações que aproximem o PSOL das demandas concretas da classe trabalhadora, garantindo que as pautas do partido dialoguem com as realidades locais e regionais.

  2. Continuar construindo alianças no campo progressista que tragam melhorias para o povo trabalhador da Bahia, tanto em campanhas eleitorais quanto na atuação parlamentar. Essas alianças devem ser firmadas com base em princípios comuns e orientadas politicamente para ampliar a presença do partido no estado, especialmente por meio dos mandatos já conquistados.

  3. Priorizar a defesa de pautas que impactam diretamente o povo trabalhador, mulheres, negros e negras, indígenas, LGBTQIAPN+ e PCDs, investindo em uma estratégia de comunicação mais robusta e alinhada aos novos formatos de engajamento político. É fundamental focar nas redes sociais, na produção de conteúdo acessível e em campanhas que aproximem o PSOL da população, ampliando seu alcance e fortalecimento popular.

  4. Garantir que vereadores e vereadoras eleitas estejam apoiadas institucionalmente e em constante diálogo com as direções do partido e suas bases. Dessa forma, é possível assegurar que essas representações sejam combativas e atuantes em seus municípios, mantendo-se sempre alinhadas aos princípios do socialismo e da liberdade.

  5. Promover ações de formação e mobilização que consolidem a atuação dos diretórios municipais e dos mandatos como referências locais do PSOL. Desde já, planejar uma estratégia para as eleições gerais de 2026, utilizando o crescimento obtido em 2024 como base para ampliar o número de deputados/as estaduais e alcançar o objetivo de conquistar o primeiro mandato federal no estado.

  6. Por fim, assumir como tarefa prioritária o combate ao bolsonarismo e à extrema direita no país, por meio de uma luta concreta e enraizada no cotidiano do povo baiano. É imprescindível estabelecer um alinhamento popular, combativo e representativo no estado da Bahia, enquanto se reforça o protagonismo do PSOL em pautas nacionais. Isso inclui tanto o enfrentamento a agendas reacionárias e antipovo quanto a pressão para que o Governo Lula implemente plenamente o programa eleito nas urnas em 2022.


Bahia, 17 de janeiro de 2025


Diretório Estadual do Partido Socialismo e Liberdade


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